O Beijódromo nasceu sob o signo da ousadia. Seu alicerce é aço, mas é também afeto, sonho, amizade. Darcy o idealizou quando sentia que a vida escapava de suas mãos. Ele é parte de outro sonho, de uma utopia. Darcy tinha 37 anos quando começou o trabalho de reunir professores e intelectuais para, juntos, criarem o que seria a universidade do futuro. Assim se viu à frente de um dos mais notáveis grupos de intelectuais jamais reunidos na nossa história, todos eles muito jovens. Era o sonho de uma geração de um país que confiava em si, que reivindicava – como Darcy fez ao longo da vida – o direito de tomar o destino em suas mãos. Dessa entrega generosa nasceu a Universidade de Brasília.

Num dia de 1996, Darcy Ribeiro viveu, na mesma universidade, duas emoções profundas: recebeu o título de Doutor Honoris Causa, e viu o campus da UnB ser batizado com seu nome. Naquela ocasião, ele repetiu o que dissera antes tantas vezes: que esta universidade era, para ele, como uma filha querida que havia perdido o caminho e, depois, conseguira retomá-lo. Recordou como o sonho de uma geração se tornava, nos tempos da ditadura, um amargo pesadelo. E disse que sentia sua alma lavada em alegria.

Esse memorial nasceu naquele dia. Darcy pediu à UnB que cedesse uma área para abrigar todo material de seu acervo acadêmico – do seu acervo pessoal e do de Berta Ribeiro, antropóloga formidável, que foi sua companheira por décadas. E escolheu a área que hoje abriga o Memorial, na companhia do arquiteto João Filgueiras, o Lelé, o mesmo Lelé que introduziu no país a técnica dos pré-fabricados de concreto, e que junto com Darcy participara da criação desta universidade.

Juntos, Darcy e Lelé sonharam e projetaram o Beijódromo, em seus mínimos detalhes. A sintonia entre ambos foi tamanha que, em pouco tempo, Lelé rascunhava e apresentava os primeiros esboços do Beijódromo. Darcy queria uma sala ampla, com estantes deslizantes onde os alunos pudessem tocar e escolher os livros pesquisados, como quem fala com eles. Darcy sonhava com uma casa aberta, chegou a pensar em um espaço para instalar redes, um redódromo, no Beijódromo.

O tempo não permitiu a Darcy desfrutar da casa que seu amigo arquiteto projetou. Infelizmente, não houve tempo para que Darcy e sua filha querida se reencontrassem. Darcy queria que a UnB guardasse suas coisas, seus livros, seu acervo. Queria estar para sempre com ela. E agora está.