Curso de Atualização de Conhecimentos para o CIEP

Em 1992, quando Leonel Brizola assumiu o governo do estado do Rio na sua 2ª. Gestão, recebemos 1/3 dos prédios dos CIEPs já construídos, descontando os 97 pertencentes ao município do Rio de Janeiro, que não participaram do II PEE. Os CIEPs recebidos estavam sem manutenção desde o governo anterior e funcionando em turnos. Todos os outros prédios estavam no esqueleto ou para serem construídos. Eram 409 CIEPs estaduais para serem erguidos, ou terminados e reequipados, além da lotação e preparação dos professores, equipes gestoras e funcionários para o desafio de implantar a escola de tempo integral.

Em suma, passados 6 meses iniciais de organização do governo, teríamos que colocar em funcionamento 10 CIEPs por mês, durante 42 meses para dar conta dos 409 propostos. Isto significava lotar e preparar professores, matricular alunos em escolas para 700 alunos em turno integral, com cerca de 80 profissionais, em mais de 50 municípios do estado, na época.

Darcy tinha preocupação primordial com a formação dos professores. Acalentava que os professores passassem por uma residência pedagógica.

Seria necessário disponibilizar 800 profissionais por mês para colocar em funcionamento cada 10 CIEPs. Onde encontrar estes professores? Como selecioná-los? Como prepará-los nesta premência de tempo? Sem esquecer o fato de que estariam dispersos por todo o estado do Rio de Janeiro. Aí reside a genialidade de transformar uma situação com tantas limitações e desafios, numa oportunidade de solução inovadora, sem abrir mão dos princípios que embasavam sua concepção de formação do magistério.

O Curso Livre de Atualização de Conhecimentos (CLAC) era dirigido a professores recém-formados em nível médio, com no máximo 5 anos de conclusão do Curso Normal. Os candidatos não poderiam ser servidores públicos, porque passariam por processo de avaliação. Como os professores do curso eram estudantes, eram remunerados por bolsa de estudos em valor correspondente ao piso salarial de professor estatutário em início de carreira. Recebiam o dobro do piso, pois permaneciam na escola em horário integral, parte do tempo em regência de turma, parte no curso. A certificação dos professores era garantida pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), em forma de curso de extensão.

Este curso fez do CIEP um centro de formação para a educação básica e para o magistério.A orientação das bolsistas, como eram chamadas as professoras-cursistas, era feita por professor-orientador, profissional efetivo do Estado selecionado para exercer esta função, que além de dinamizar diariamente o curso na parte da manhã ou da tarde, exercia regência de turma no contraturno, de forma a não se afastar da prática de sala de aula. Através desta dinâmica, cada CIEP contava com duas turmas de formação em serviço, uma com atividades teórico-metodológicas pela manhã e outra à tarde, cada uma com um professor-orientador. Estes profissionais, além da formação inicial, participavam de reuniões mensais com a coordenação do projeto para que pudessem desempenhar sua função .

O curso, com duração de 1.600 horas, foi organizado em três módulos de 640 horas, cada um correspondendo a um semestre letivo. Era realizado dentro de cada CIEP e distribuía a carga horária de oito horas diárias em quatro horas de prática docente orientada e quatro horas de estudos teórico-pedagógicos, através de programas de vídeo e material impresso. Assim as turmas da escola contavam com duas professoras-bolsistas cada uma, a docente da manhã e a da tarde, com reunião semanal para planejamento das atividades.

No cotidiano do curso, eram exibidos três programas de vídeo, com duração de 20 minutos cada, todos os dias. A programação televisiva era veiculada pela antiga rede Manchete, em canal aberto. A grade de programas era informada pela própria emissora antecipadamente. Essa programação era gravada nos CIEPs pela videoeducadora, de forma que, ao final do curso, cada CIEP tivesse o acervo completo dos filmes gravado. Os filmes eram assistidos e debatidos pelas professoras-bolsistas junto com a PO, que poderiam rever a programação, se quisessem. Assim a programação era única, mas sua utilização ficava a critério de cada escola e/ou grupo de ex-bolsistas, que estabeleciam seu próprio ritmo.

Este curso de formação em serviço desenvolveu-se entre 1992 e 1993. Os 6.426 professores recém-formados em nível médio foram selecionados entre 22.118 candidatos em 54 municípios dos 81 então existentes no estado do Rio de Janeiro. A seleção era realizada por município e incluía uma redação sobre tema educacional e uma prova elementar de matemática. Para serem aprovados, inicialmente, os candidatos tinham que alcançar nota cinco nas duas avaliações.

Para avaliação do desempenho no curso, cada dupla de bolsistas responsável por uma turma, ao final de cada módulo, elaborava um relatório das atividades realizadas no período, argumentando, com base no conhecimento adquirido, o que fora desenvolvido e avaliando os resultados alcançados. Estes relatórios eram analisados e devolvidos às bolsistas com comentários. Caso os relatórios não alcançassem a capacidade de reflexão esperada, pedia-se às bolsistas que refizessem os relatórios. Este foi um dos fatores mais importantes para a credibilidade do curso. Os professores aprovados no curso receberam certificado que serviu como título no concurso público, realizado no final de 1993, para preenchimento de vagas em todos os CIEPs, por profissionais concursados, antes do término do governo. 

Em síntese, foi uma experiência inovadora, utilizando recursos variados e oferecendo qualidade; sedutora, tendo em vista os recursos oferecidos; e significativa, considerando a abrangência da população envolvida, sejam docentes, alunos e escolas espalhados em mais de 50 municípios. Destaque-se que o curso articulou, a distância, um eixo comum a todos os professores em todos os CIEPs do estado através dos vídeos da Educação pela TV compostos pela Rede Geral e pelo CLAC a uma prática local e diversa que variava de acordo com o grupo de bolsistas e as particularidades de cada região. Numa época em que não havia internet.

Além disso, a permanência em tempo integral no ambiente que envolvia tanto a prática docente quanto a prática formativa, no mesmo espaço e de forma coletiva, por si só favorece a reflexão sobre sua própria prática inserida em valores e vivências pessoais, construindo sua ética profissional. E para coroar este processo, as bolsistas não faziam estágio nas turmas – elas eram as responsáveis por suas turmas, eram suas professoras, em dupla. Esta dimensão, difícil de ser encontrada em outros projetos de formação, é intrínseco a um modelo de residência pedagógica.