Outros depoimentos acadêmicos

Tese de uma arquiteta sobre como é usado o abandono dos prédios para fins eleitorais. Um dos exemplos estudados foi o CIEP:

Ao assumirem o Poder, os grupos antagônicos ao governo  anterior, entretanto, não se dedicam a mudar a “marca”, como poderia-se esperar, mas abandonam completamente as políticas de expansão e, o que é mais grave, deixam de investir na manuntenção dos prédios existentes (…) E os prédios recém-construídos, assim como os mais antigos, deterioram-se até o momento em que, sem condições ambientais de utilização, passam a ser apresentados à população, através dos meios de comunicação, como “edificações obsoletas” (Moussatché, 1998, p.186)

A comparação feita por Leonardos (1991) entre um CIEP e uma escola convencional, situados na mesma comunidade, sobre pensamento crítico investigou a fala, a leitura e a escrita em turmas de 4ª série.  Os alunos do CIEP eram mais pobres, mas apresentavam histórico escolar semelhante aos da outra escola. Os alunos do CIEP revelaram domínio superior significativo na fala e desempenho homogêneo nas três habilidades.  Os da escola de meio período mostraram grande oscilação nas três habilidades. Na pesquisa realizada em 1992, na mesma escola, Leonardos estudou as redações argumentativas dos alunos. O estudo concluiu que a postura dos alunos do CIEP era não-repetidora do senso comum, pois havia tentavam elaboração própria; já os alunos da escola convencional de meio período enquadravam-se na repetição da palavra autorizada: “enquanto grupo social, os alunos do CIEP se identificam com a classe baixa, estabelecem relação de pertinência com a sua comunidade, reivindicam uma postura menos discriminatória por parte dos “lá de fora” e questionam o discurso dominante no que concerne a associações do tipo pobreza-violência”. (Leonardos, 1992, p. 33)

Tese sobre o Estudo Dirigido nos CIEPs:

Coelho (1996) afirmou que qualidade emancipatória a ser desenvolvida no ensino público fundamental requer democracia que se lê, minimamente, como acesso e permanência na escola, mesmo que seja necessário facultar condições desiguais para que as crianças das classes desprivilegiadas possam se tornar iguais. Concluiu que a extensão da quantidade de horas na escola é condição para desenvolver a qualidade emancipatória, inserindo conteúdo político na qualidade de ensino.  

Oliveira (1991) distinguiu dois tipos de críticas ao custo dos CIEPs: de um lado, os que discordavam da oportunidade de implantar uma escola como essa; de outro, as que incidiam sobre a análise dos gastos dessa implantação. Rebate a impossibilidade de universalização do atendimento em tempo integral quando não se garantia ainda ensino de boa qualidade em tempo parcial, alegando que a escola unitária tem sido confundida com uniformidade de atendimento

Três aspectos positivos mereceram destaque por terem sido citados tanto por críticos como por defensores da implantação da escola de horário integral: o primeiro e mais significativo pela demanda por essa escola é a satisfação dos pais; o segundo enfocou o horário integral do professor, que permitia intervalos para planejamento; o último foi o de que a proposta dos CIEPs suscitou discussão sobre a escola pública, figurando como plataforma política dos candidatos a eleições (Mauricio, 2004)

Por outro lado, houve CIEPs que em nada diferiam das demais escolas, a não ser pelo banho e pelo número de refeições e pela preocupação quotidiana do diretor em ocupar o tempo dos alunos, para evitar eclosão de atos de violência, resultado do confinamento em tempo prolongado. Isso deixou à mostra, ainda mais, o caráter monumentalista e eleitoreiro da construção dos prédios, como se fosse condição indispensável para se oferecer educação de rico para pobre. (Cunha, 1991, p.150)

Já vimos como os CIEPs, destinados ao 1º. Grau, não serviram para oferecer oportunidades de escolarização para as crianças que estavam fora da escola, embora fossem de grande utilidade para dar uma impressão de concretude ao discurso populista do governo Brizola. (Era necessário) acabar com as construções monumentais, que só servem para absorver grandes recursos financeiros, aumentar os valores simbólicos dos governantes e engordar as “caixinhas” (Idem, p. 483)

O fato dos CIEPs cumprirem uma função social no que se refere ao atendimento à demanda por escola pública em áreas carentes, não eliminou a faceta clientelista do projeto, revelada pelo critério de escolha das áreas a serem construídas, pelo excessivo número de CIEPs inaugurados em período pré-eleitoral e pela contratação de pessoal sem concurso. (Leal, 1991, p.150)

Ao responderem se essa escola poderia servir de instrumento para a universalização da educação elementar às amplas camadas da população, os pesquisadores argumentaram que as propostas de horário integral no Brasil daquele momento se apresentavam como alternativas a instituições como a FEBEM, que, se obtiveram êxito na segregação da ameaça que as crianças das classes populares representam, fracassaram inteiramente na sua “ressocialização”. (Paro et al, 1988)

Mignot (1988) concluiu, da sua observação, que o papel da escola era suprir carências. Como resultado, deixava de cumprir sua função de ensinar, agravando a carência dos pobres.

Sobre a universalização da escola de horário integral, Paro et al. comentaram que a simples extensão da escolaridade diária não garantia o funcionamento ótimo da escola. Consideravam que é certo que um dos graves problemas da educação é o pequeno tempo de permanência do aluno na escola, mas há outros tão graves quanto este, como por exemplo: a superlotação das salas de aula, que redunda em evasão e repetência e que pode ser solucionado independentemente da extensão da escolaridade.

Sobre a satisfação dos pais:

Paro et alii (1988c) reconhecem que a população deseja esses projetos. Lobo Jr. (1988) atribui o entusiasmo das comunidades e das equipes do CIEP a um certo consenso vulgar do que seja escola de qualidade. Lima (1988) registra que, apesar da omissão da escola em discutir a disciplina, a visão dos pais era positiva, um descanso saber que os filhos estavam na escola.