O Programa dos CIEPs foi avaliado por visões antagônicas. De um lado, os que conceberam, implementaram, trabalharam, estudaram e se beneficiaram de alguma forma por esta escola tinham visão positiva da proposta, por mais que criticassem alguns aspectos tendo em vista a pressa com que foram construídos e implementados. De outro lado, a visão de opositores que não queriam ver o que se passava na escola, porque tudo era condenável tendo em vista a perspectiva da candidatura de Leonel Brizola à presidência da república. Mesmo intelectuais de esquerda não escaparam desta onda anti-brizolista. Alguns deles emprestaram seu reconhecimento público para participar do desmonte dos CIEPs na gestão de Moreira Franco, exercendo funções gratificadas na Secretaria de Estado de Educação. Nem mesmo os sindicatos reconheciam a proposta como sendo de educação popular. Esta visão foi turbinada pelo jornal O Globo, gerando preconceito do público em relação aos CIEPs – era uma escola de pobre.
Nesta seção, destacamos alguns depoimentos que ilustram esta tensão político-partidária que, por um lado, envolveu a sociedade e destruiu o programa de escola de tempo integral de Darcy Ribeiro, Leonel Brizola e Oscar Niemeyer; e por outro, depoimento dos executores da proposta – Darcy Ribeiro e Leonel Brizola – além de professoras que trabalharam no programa.
Carta de Brizola Após 1º.PEE
Clique na imagem para ampliar
Depoimentos de Ex-Professoras de Ciep
Tenho muita saudade daquele primeiro ano em 1993, tudo funcionava, tudo era novo, nossos olhos brilhavam pelo encanto de participar de um programa de alto nível, chamado CIEP… No final do ano de 1993 entendi que era verdadeiramente o que eu queria e fiz a prova para o estado, passei e optei em retornar para o mesmo Ciep.
(Estatutária, 29 anos, N. médio)
Tive um choque com CIEP: salas lotadas, alunos sem limites, carentes de tudo…precisavam de auxílio tanto quanto eu…não agiria com eles com a repressão…Em 1992, optei por trabalhar 40 horas, comecei então ter mais tempo para os alunos o que facilitou nosso relacionamento.
(Estatutária, 44 anos, N. médio)
Depoimentos Acadêmicos
O Impacto nacional que o CIEP causou colocou em discussão não as escolas, mas a disputa político-partidária representada por Brizola e Darcy. Apesar das críticas, o CIEP figurou como plataforma política de todos os candidatos ao governo do Estado; tornou-se “nome próprio”para escola de tempo integral; entrou na vida dos usuários, nos debates de educação, dos intelectuais e políticos.
Brandão, 1989
Um pouco ao estilo de políticos e intelectuais megalomaníacos que, de posse de um projeto faraônico que lhes garantirá vantagens e promoção pessoal, saem à cata de justificativas para aplicá-los onde quer que seja, até mesmo na escola.
PARO et alii, 1988c, p. 89
CIEP: Representação do Jornal O Globo
O Globo, em maio de 2006, publicou, durante uma semana, reportagens sobre os Centros Integrados de Educação Pública (CIEP) que completavam 21 anos de sua implantação. A série exibia a avaliação do jornal: um fracasso. As reportagens atualizaram argumentos que, no passado, legitimaram a condenação deste projeto de escola pública ao abandono. A manchete de capa, com fonte de tragédia, era ilustrada por expressiva foto, ocupando 40% da página, de um menino negro de 8 anos num pátio identificável de Ciep abandonado, exibia a legenda: “apesar de morar dentro de escola, ele não estuda”. O texto abaixo da foto indica os argumentos que serão o suporte da série: os CIEPS foram criados para serem a escola pública dos sonhos […] continuam sendo apenas um sonho.
Aqui a manchete compõe um terrível jogo de palavras com a piscina abandonada, invertendo a responsabilidade pelo suposto fracasso desta escola, atribuindo-o ora aos alunos, testemunhos do desastre, da qual deixaram de se beneficiar; ora atribuindo-o à própria escola, por falta de manutenção, isentando as autoridades pela decisão política de inviabilizar o projeto e abandonar o patrimônio público.
Pode-se imaginar o que se alcançaria se o dinheiro aplicado nesse projeto fosse investido em construção, reforma e reequipamento das milhares de pequenas escolas públicas, modestas e tão carentes, espalhadas por todo o estado.
O editorial apontou o cerne da questão: se o foco fosse outro. A educação brasileira precisa além de recursos materiais e humanos, conhecimento sobre educação pública no Brasil, esperança da população e compromisso dos educadores para que ganhe credibilidade e torne-se viável. É esta compreensão que falta ao jornal: que os Cieps projetavam o futuro. Em vez de calcular quanto cada escola modesta perdeu em recursos para os Cieps, o que dificilmente repercutiria em resultados, seria mais educativo vislumbrar como estaria a educação hoje no estado do Rio se o projeto não tivesse sido interrompido.


