De Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro aos CIEPs

Darcy Ribeiro teve concepção de escola pública profundamente marcada pelas ideias de Anísio Teixeira: a escola primária obrigatória deveria formar a massa do trabalhador. Ela deveria ser de formação de hábitos de pensar, de fazer, de conviver, de trabalhar, de participar de um ambiente democrático. Por isso seus períodos não poderiam ser curtos. As habilidades para ler, escrever, contar e desenhar precisam ser ensinadas como técnicas sociais, em contexto real. A escola supriria as deficiências de outras instituições.

A escola de tempo integral para Darcy Ribeiro baseava-se no seu diagnóstico de que a incapacidade brasileira para educar sua população ou alimentá-la devia-se ao caráter deformado de nossa classe dominante, com descaso por sua população, porque via o povo como mera força de trabalho, consequência de termos sido o último país do mundo a acabar com a escravidão. Darcy enfatizava que a transição da cultura oral para a escola moderna não se processa automaticamente. Só é alcançada como resultado de vontade política, para universalizar uma escola de qualidade. A escola por si só não produz o desenvolvimento, nem ele universaliza automaticamente a escola. A função da escola na sociedade industrializada é formar força de trabalho competente e uma cidadania lúcida. Sua tarefa é introduzir a criança na cultura da cidade, uma ponte entre o conhecimento prático que a criança pobre já adquiriu e o conhecimento formal que é exigido pela sociedade letrada

O autor considerava que o baixo rendimento da escola brasileira residia na exiguidade do tempo de atendimento, pois a criança das classes abonadas tem em casa quem estude com ela horas extras. O pouco tempo só penaliza a criança pobre, porque ela só conta com a escola para adquirir o conhecimento formal. Para Darcy, não é o ensino que permite o desenvolvimento físico e mental da criança; é este desenvolvimento que permite a aprendizagem. Brincar é uma atividade essencial nesse processo. Ele considerava que toda a infância brasileira é capaz de ingressar no mundo das letras, se lhes forem compensadas as condições de pobreza em que vivem. Para ele, é necessária escola ampla para que passem o dia estudando, fazendo exercícios físicos e brincando; além das aulas comuns, oferecer orientação no estudo dirigido e atividades diversificadas, para aproximar a educação das crianças populares da que é recebida pelas crianças de classe média: alimento balanceado, banho diário, assistência médica e dentária. Esta era a proposta do CIEP.

Em síntese, Anísio e Darcy compreendiam que a criança popular precisa ter na escola, coletivamente, oportunidades que o filho da classe média tem na sua própria casa. E esse ponto de vista se desdobrava na necessidade da escola de tempo integral, enraizada culturalmente na comunidade.